AS REGRAS DA ANSIEDADE (PARTE I): O QUE SÃO?

Nós já sabemos que nossa ansiedade se originou em nossos ancestrais. Quando experimentamos um medo irracional (pode ser de um acidente de avião, de um cachorro que late, da ruína financeira, de uma doença contagiosa, de ser rejeitado ou de qualquer outra coisa), estamos agindo de acordo com padrão que surgiu há centenas de milhares de anos ou mesmo há milhões de anos. Mas, será que podemos fazer alguma coisa a respeito? Existe uma maneira de nos livrarmos da ansiedade definitivamente?

 

Os seis tipos básicos de transtorno de ansiedade conhecidos são apenas as categorias gerais. Não são de fato problemas distintos, da mesma maneira que são, digamos, as diferentes doenças que podem acontecer em nossos corpos. Em vez disso, são parte de um padrão geral de ansiedade passado a nós por nossa programação evolutiva. Por essa razão, um transtorno de ansiedade, embora possa ter um objeto específico, é normalmente parte de uma condição mais universal.  Por isso que médicos especialistas na área falarão sobre os padrões gerais, em vez de tentar dirigir a atenção para sintomas específicos como base para o diagnóstico. Por causa de suas raízes compartilhadas, os vários padrões de ansiedade tendem a ter sintomas em comum. Compreendendo essas similaridades, podemos ter um melhor domínio sobre o modo como nossas mentes se tornam ansiosas.

 

Nossa programação evolutiva, conhecida também como o “software” de nossos cérebros, nos propiciou um conjunto instruções para lidar com qualquer tipo de risco. Essas instruções estão até mesmo nas mentes dos indivíduos que não sofrem de ansiedade, mas se tornam ainda mais presentes quando tratamos de uma pessoa diagnosticada.  Em ansiosos, essas programações tornam-se menos sinais de alerta e, mais, regras absolutas.

 

Mas, o que são essas regras, exatamente? O comportamento humano é complexo e difícil de ser reduzido a elementos simples. No entanto, é interessante o modo como nossos padrões de ansiedade se tornam amplos e universais. Independentemente do quanto nosso pensamento esteja perturbado pelo medo, nós sempre parecemos adotar certas tendências básicas, certas regras, em resposta às situações que causam ansiedade. É como se a natureza tivesse escrito uma lista dessas regras em nossos cérebros. Essa lista pode ser resumida nos pontos a seguir:

 

1. Detecte o perigo: a primeira regra é identificar o perigo tão rapidamente quanto possível, de modo que você possa eliminá-lo ou escapar. Se você teme ser rejeitado pelos outros, será rápido em perceber quando as pessoas começam a ficar bravas com você; expressões faciais ambíguas parecerão hostis. Se você se preocupa com doenças, bastará uma pessoa tossir para que você saia do lado dela; qualquer notícia no jornal sobre algum surto de doença chamará sua atenção. Se você sofre de algum tipo de ansiedade, tenderá a estar sempre em estado de alerta.

2. Transforme o perigo em catástrofe:  o próximo passo do processo é o de interpretar automaticamente o perigo como um total desastre. Se alguém não for muito simpático em uma reunião, você achará que o problema é com você. Uma mancha escura na pele já lhe indicará um câncer. Um elevador lento ou que funciona mal é sinal de que você logo ficará preso nele, sem condição de sair. Nada é considerado um problema menor: um buraco na estrada transforma-se em uma mina prestes a explodir.

3. Controle a situação: o terceiro passo é tentar controlar sua ansiedade controlando as coisas que estão à sua volta. Se suas mãos entram em contato com germes, você corre para a pia para lavá-las. Se você acha que cometeu um erro no trabalho, volta ao escritório para verificar tudo o que fez em tal dia. Se você está lidando com uma obsessão, tentará banir os pensamentos de sua mente.

4. Evite ou escape: uma alternativa para o passo três é evitar a situação de ameaça como um todo, ou, caso, tenha se materializado, afastar -se dela imediatamente. Se você estiver nervoso em relação a encontrar alguém em uma festa, você simplesmente não vai. Se você teme um ataque de pânico, tenta ficar fora de qualquer lugar que possa desencadear um ataque. Você busca não confrontar qualquer um de seus medos.

 

Portanto, agora sabemos que essas são as regras universais da ansiedade. A partir delas é importante saber que são chamadas “regras”, não buscando ser seguidas e, sim, por parecerem ter um poder absoluto, como leis. Porém, se as analisarmos com maior cuidado, veremos que cada uma delas é sustentada por certas crenças que surgem a partir da ansiedade. Faz parte do tratamento examinar essas regras e suas hipóteses, colocando-as em questão, para vermos se são ou não verdadeiras.

 

Mas, se elas surgem a partir de crenças criadas pela ansiedade, como vamos desconstruí-las e progredir no tratamento? Isso é um assunto para o nosso próximo texto: “As regras da ansiedade (Parte II): Descontruíndo-as”.

Dr Antonio Viola

Dr Antonio Viola

Médico psiquiatra e psicanalista, graduado em Medicina pela Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), residência médica em Psiquiatria no Hospital do Servidor estadual de São Paulo (IAMSPE) e formado em Psicanálise para Psicoterapeutas pelo Centro de Estudos Paulista.

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