Por que estamos cada vez mais ansiosos?

 

O Mundo parece estar cada vez mais ansioso e, isso não é apenas uma impressão, é um fato. Os índices de ansiedade geral aumentaram muito nos últimos 50 anos. O aumento mais significativo ocorreu entre 1952 e 1967 e os números continuaram a crescer até os dias atuais. Mas, por que esse aumento? Não estamos melhor do que no passado? As pessoas não vivem mais tempo e recebem mais tratamentos médicos do que antes? Essa é uma questão que médicos da área da saúde mental estão estudando a fundo para poder nos responder.

Temos que concordar que muitos dos riscos comuns da vida foram eliminados ou drasticamente reduzidos nos últimos anos. Estamos mais bem preparados para lidar com doenças contagiosas, com a mortalidade infantil, com problemas climáticos, com casas mais confortáveis, rodeados de aparelhos que facilitam nossas vidas e nos livram de trabalhos mais duros e perigosos. Qualquer um pensaria que por estarmos mais protegidos de maneira geral, o nosso nível geral de ansiedade teria diminuído. Na verdade, esse nível aumentou. Transformamo-nos em uma sociedade de pessoas muito nervosas. O que explica isso?

 

Existem outros fatores que compõem nosso bem estar que vão muito além do conforto material, tecnologia e segurança. Um desses fatores é o nível de “conexão social” que temos em nossas vidas cotidianas. Ao longo do último século, os avanços sociais e tecnológicos transformaram nossos laços menos estáveis e previsíveis. A separação de casais é mais comum, as famílias estão cada vez mais divididas e espalhadas por outros estados ou, até mesmo, pelo mundo. As comunidades locais se tornaram muito menos coesas, dispersas pela mobilidade econômica, pelas estradas e pelos automóveis, além de os locais de compras e de entretenimento estarem cada vez mais distantes.

 Fatores como isolamento nas cidades, aumento do crime, desemprego, competição econômica, jornadas de trabalho mais longas e exaustivas contribuem para o sentimento de que a vida não é mais tão “fácil” quanto já foi. O apoio de uma sociedade estável, de que a evolução nos acostumou a ser dependente, não está disponível como antes.

Dessa maneira, essas mudanças afetam diretamente o modo como pensamos e vivemos nossas vidas. Nosso senso de autoconfiança deu espaço ao sentimento de que vivemos, muitas vezes, apenas para pagar contas ou entregar trabalhos. Ao mesmo tempo, nossas expectativas em relação ao conforto material aumentou por causa da riqueza, em função de nossas novas identidades como consumidores. Ou seja, estamos sim mais ansioso. Esse sentimento surge do nosso constante envolvimento em situações-gatilho como rotinas caóticas, grandes expectativas, padrões de consumo, anúncios nas grandes mídias, o oferecimento de um número maior de opções de compra, entre outros.

  A sociedade mudou e nós mudamos juntos. Agora, nosso dever é entender o que acontece à nossa volta, observando os fatores que podem ser gatilhos para crises de ansiedade e sentimentos relacionados a esse transtorno. Procurar a ajuda profissional é a principal chave que precisa ser virada para entendermos a fundo o porquê estamos cada vez mais ansiosos. E sim, estamos sendo diagnosticados cada vez mais com transtornos de ansiedade mas devemos manter o otimismo de que contamos com a ciência trabalhando ao nosso favor.

Dr Antonio Viola

Dr Antonio Viola

Médico psiquiatra e psicanalista, graduado em Medicina pela Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), residência médica em Psiquiatria no Hospital do Servidor estadual de São Paulo (IAMSPE) e formado em Psicanálise para Psicoterapeutas pelo Centro de Estudos Paulista.

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